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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O papel da história: Face de espelho







         “Há muitos anos vivia na Índia um rei sábio e muito culto. Já havia lido todos os livros de seu reino. Seus conhecimentos eram numerosos como os grãos de areia do rio Ganges. Muitos súditos e ministros, para agradar o rei, também se aplicaram aos estudos e às leituras dos velhos livros. Mas viviam disputando entre si quem era o mais conhecedor, inteligente e sábio. Cada um se arvorava em ser o dono da verdade e menosprezava os demais.
         O rei se entristecia com essa rivalidade intelectual. Resolveu, então, dar-lhes uma lição. Chamou-os todos para que presenciassem uma cena no palácio. Bem no centro da grande sala do trono estavam alguns belos elefantes. O rei ordenou que os soldados deixassem entrar um grupo de cegos de nascença.
         Obedecendo às ordens reais, os soldados conduziram os cegos para os elefantes e, guiando-lhes as mãos, mostraram-lhes os animais. Um dos cegos agarrou a perna de um elefante; outro segurou a cauda; outro tocou a barriga; outro, as costas; outro apalpou as orelhas; outro, a presa; outro, a tromba.
         O rei pediu que cada um examinasse bem, com as mãos, a parte que lha cabia. Em seguida, mandou-os vir à sua presença e perguntou-lhes:
         __ Com que se parece um elefante?
         Começou uma discussão acalorada entre os cegos.
         Aquele que agarrou a perna respondeu:
         __ O elefante é como uma coluna roliça e pesada.
         __ Errado! – interferiu o cego que segurou a cauda. __O elefante é tal qual uma vassoura de cabo maleável.
         __ Absurdo! – gritou aquele que tocou a barriga. __ É uma parede curva e tem a pele semelhante a um tambor.
         __ Vocês não perceberam nada – desdenhou o cego que tocou as costas. __ O elefante parece-se com uma mesa abaulada e muito alta.
         __ Nada disso! – resmungou o que tinha apalpado as orelhas. __É como uma bandeira arredondada e muito grossa que não pára de tremular.
         __ Pois eu não concordo com nenhum de vocês – falou alto o cego que examinara a presa. __Ele é comprido, grosso e pontiagudo, forte e rígido como os chifres.
         __ Lamento dizer que todos vocês estão errados – disse com prepotência o que tinha segurado a tromba. __ O elefante é como a serpente, mas flutua no ar.
         __ O rei se divertiu com as respostas e, virando-se para seus súditos e ministros, disse-lhes:
         __ Viram? Cada um deles disse a verdade. E nenhuma delas responde corretamente a minha pergunta. Mas se juntarmos todas as respostas poderemos conhecer a grande verdade. Assim são vocês: cada um tem a sua parcela de verdade. Se soubesses ouvir e compreender o outro e se observarem o mundo de diferentes ângulos, chegarão ao conhecimento e à sabedoria.”

FONTE: HOLANDA, A. B. de e RÓNAI, P. Mar de Histórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, v.1.Conto do budismo chinês
        
         Com este texto, podemos observar o quanto a história está relacionada à busca de dados que comprovem a verdade; mas mesmo sendo contada a partir de provas concretas, a história está sujeita à escolha e competência de quem a escreve.

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