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quarta-feira, 11 de maio de 2011

Respeitar ou pertencer

          Existe uma grande diferença entre respeitar a história e pertencer a ela. 
       Ao respeitarmos uma história, estamos cientes dos fatos ocorridos no passado e temos plena noção de que os mesmos passam por constantes alterações diante das novas exigências do mundo contemporâneo.

       



Colégio Nossa Senhora Auxiliadora de Batatais (antes e depois)



         Por outro lado, pertencer a uma história indica uma maior cumplicidade com os fatos ocorridos no passado, que de certa forma são preservados espontaneamente na memória coletiva, através dos nossos gestos, costumes, rituais e celebrações.
        Quanto mais rápida as mudanças ocorridas em uma cidade, mais difícil será a preservação da memória coletiva e, infelizmente, as mudanças são inevitáveis. O mundo atual impõe uma atualização constante das coisas, mediante os avanços tecnológicos e capitalistas.






Primeira estação Mogiana de Batatais
Estação Mogiana de Batatais em 1939

        O poeta Carlos Drummond de Andrade, sensível a esta necessidade do pertencimento ao passado, escreveu diversas poesias sobre a sua condição diante das principais edificações que marcaram a sua vida, sejam elas construções comuns ou prédios públicos.
        Tomo a liberdade de apresentar trechos de duas poesias de Drummond, que exemplificam muito bem a relação de pertencimento entre cidadão Carlos Drummond de Andrade e os lugares de memória da cidade.
“Fechado o Cinema Odeon, na Rua da Bahia.
Fechado para sempre.
Não é possível, minha mocidade
fecha com ele um pouco.
Não amadureci ainda bastante
para aceitar a morte das coisas
que minhas coisas são, sendo de outrem,
e até aplaudi-la, quando for o caso.
(Amadurecerei um dia?)
Não aceito, por enquanto, o Cinema Glória,
maior, mais americano, mais isso-e-aquilo.
Quero é o derrotado Cinema Odeon,
o miúdo, fora-de-moda Cinema Odeon.
A espera na sala de espera. A matinê
com Buck Jones, tombos, tiros, tramas.”
(O fim das coisas – Carlos Drummond de Andrade)

“Estão demolindo
o edifício em que não morei.
Tinha um nome
somente meu.
Meu, de mais ninguém.
O edifício
não era meu.” (O Nome – Carlos Drummond de Andrade)

        Além das infindáveis demolições, sentimentos como a falta de tempo e insegurança em relação à violência são típicos desta nova realidade imposta, em que o homem vem se isolando cada vez mais de seu grupo. Quanto mais o homem se individualizar, menor será a sua memória coletiva, que forma a identidade de uma cidade.
        Desaparecendo a memória coletiva, a cidade não deixará de existir. Sua história permanecerá registrada nos documentos e museus.
        Mas, desaparecendo os suportes da memória, estaremos perdendo um dos mais importantes elementos de formação do cidadão, no sentido pleno da palavra.

Um comentário:

  1. Adorei ver fotos antigas de minha cidade,
    especialmente do Colégio Nossa Senhora Auxiliadora,
    onde formei-me professôra na turma de 1966.
    Verluci Almeida

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